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Opinião ”Quanto custa o medo das crianças ao SNS? O impacto invisível da ansiedade pré-operatória na eficiência do sistema | Inês Esteves

13 Maio, 2026
by Luís Filipe
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Quanto custa o medo das crianças ao SNS?

O impacto invisível da ansiedade pré-operatória na eficiência do sistema

Quem trabalha em pediatria perioperatória conhece bem esta realidade: uma criança a caminho do bloco operatório, dominada pelo medo, e pais angustiados a tentar confortá-la. O que raramente se pergunta é: quanto custa esse medo ao SNS (Serviço Nacional de Saúde)?

Aquilo que muitas vezes é interpretado apenas como uma reação emocional inevitável – o nervosismo, o choro ou a resistência física antes da cirurgia – representa também um custo frequentemente ignorado e potencialmente evitável. Em termos de economia da saúde, a ansiedade pré-operatória pediátrica é uma fonte relevante de ineficiência no sistema, aumentando o consumo de recursos sem gerar qualquer valor adicional em saúde.

A dimensão do problema é expressiva. A literatura empírica demonstra que entre 40% e 60% das crianças submetidas a cirurgias eletivas apresentam níveis clinicamente significativos de ansiedade, uma prevalência que pode aproximar-se dos 80% nas faixas etárias mais jovens [1,2]. Apesar destes números, a ansiedade pré-operatória pediátrica continua frequentemente tratada como uma variável secundária na organização dos cuidados.

A pergunta central que se impõe é: qual é o custo real da nossa inação?

Do ponto de vista clínico, a evidência é robusta. A ansiedade não gerida está diretamente correlacionada com maiores necessidades de bólus anestésicos durante a indução, consumo acrescido de analgesia no pós-operatório e estadias em recobro mais prolongadas [3,4]. Uma meta-análise publicada em 2024, que sintetizou 45 ensaios clínicos randomizados, confirmou que intervenções simples de gestão da ansiedade (como as técnicas de distração ativa ou role-play) reduzem significativamente estes níveis de ansiedade [5].

Contudo, é no impacto económico direto e indireto que o argumento ganha o seu verdadeiro peso. O bloco operatório é, consensualmente, o “metro quadrado” mais caro de qualquer infraestrutura hospitalar. Estimativas internacionais apontam para custos diretos na ordem dos 36 dólares (cerca de 33 euros) por minuto, apenas em encargos fixos com pessoal e infraestrutura [6]. No SNS português, embora as metodologias de contabilização de custos variem entre instituições, a regra de ouro é universal: qualquer fator que perturbe o fluxo cirúrgico traduz-se em impacto financeiro imediato.

Cuidar de uma criança que resiste à indução anestésica, à separação parental ou necessita de contenção não é apenas um desafio clínico e ético; representa minutos adicionais de ocupação da sala operatória. Tempos de preparação mais longos acumulam atrasos em cascata ao longo do dia, reduzem a capacidade produtiva do sistema e podem aumentar a pressão sobre equipas e horários. Falamos de um clássico problema de custo de oportunidade: tempo e recursos especializados são desviados de atos com maior valor acrescentado para gerir consequências de um fator de risco potencialmente modificável.

Além dos custos diretos intra-hospitalares, a economia da saúde obriga-nos a olhar para a perspetiva societal. Níveis elevados de ansiedade pré-operatória associam-se a alterações comportamentais no pós-alta – como perturbações do sono, enurese ou comportamentos regressivos (perda de competências previamente adquiridas) [3]. Estes impactos geram custos diferidos substanciais: traduzem-se em novas idas aos cuidados de saúde primários e aos serviços de urgência hospitalar, absentismo escolar da criança e perda de produtividade laboral para os pais.

Portugal encontra-se num momento de viragem com a generalização das Unidades Locais de Saúde (ULS). Este modelo, pensado para integrar diferentes níveis de cuidados e responsabilizar as organizações pela saúde das populações que servem, exige também uma maior atenção à eficiência e ao valor gerado pelos cuidados. Contudo, no SNS estes indicadores continuam pouco integrados na monitorização da experiência dos doentes e das famílias (PREMs), particularmente na sua dimensão psicológica, o que faz com que a inovação nesta área dependa sobretudo da iniciativa das equipas locais. Sem métricas que permitam captar este fenómeno, também o seu impacto económico permanece largamente fora do radar dos sistemas de gestão.

A integração sistemática de indicadores de ansiedade pré-operatória em crianças e de programas de preparação emocional nos dashboards de gestão das ULS seria um passo decisivo. Trata-se de uma intervenção com potencial para melhorar simultaneamente os outcomes reportados pelas famílias e a eficiência do bloco operatório.

Num SNS confrontado com constrangimentos estruturais, continuar a tratar a ansiedade das crianças como um dano colateral inevitável não é apenas falta de humanização; é aceitar uma ineficiência económica.

Em saúde, nem todos os custos estão visíveis nas folhas de cálculo. O medo das crianças é um deles – e o sistema continua a pagar essa fatura, com juros, todos os dias.

Inês Esteves

Nota do autor

Inês Esteves é Enfermeira Especialista em Saúde Infantil e Pediátrica e doutoranda em Ciências de Enfermagem no ICBAS, Universidade do Porto, com investigação centrada no impacto económico de intervenções dirigidas à ansiedade pré-operatória em crianças.

Referências

  1. Liang Y, Huang W, Hu X, Jiang M, Liu T, Yue H, Li X. Preoperative anxiety in children aged 2–7 years: a cross-sectional analysis. Transl Pediatr. 2021;10(8):2024–2034.
  2. Ma X, Zhang Z, Bao Y, Zhao H. Impact of pediatric surgery on anxiety in children and their families and coping strategies: a narrative review. Transl Pediatr. 2025;14(4):718–727. doi: 10.21037/tp-2025-10.
  3. Kain ZN, Mayes LC, Caldwell-Andrews AA, Karas DE, McClain BC. Preoperative anxiety, postoperative pain, and behavioral recovery in young children undergoing surgery. Pediatrics. 2006;118(2):651–658. doi: 10.1542/peds.2005-2920.
  4. Wang R, Huang X, Wang Y, Akbari M. Non-pharmacologic approaches in preoperative anxiety, a comprehensive review. Front Public Health. 2022;10:854673. doi: 10.3389/fpubh.2022.854673.
  5. Mustafa MS, et al. Preoperative anxiety management in pediatric patients: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials on the efficacy of distraction techniques. Front Pediatr. 2024;12:1353508.
  6. Childers CP, Maggard-Gibbons M. Understanding costs of care in the operating room. JAMA Surg. 2018;153(4):e176233.
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