Saúde Intergeracional Justa e Equitativa: Perspetivas, Abordagens e Indicadores
A saúde intergeracional constitui um conceito central na reflexão sobre a sustentabilidade social e a justiça entre gerações. Poder-se-á referir a este conceito como a capacidade de assegurar, no presente, condições de saúde e bem-estar que não comprometam as oportunidades das gerações futuras de alcançarem níveis iguais ou superiores de qualidade de saúde e vida. Este conceito ultrapassa a mera transmissão biológica de determinantes de saúde, abrangendo a herança social, económica e ambiental que molda as trajetórias individuais e coletivas ao longo do tempo. Assim, pensar a saúde intergeracional é refletir sobre como políticas, sistemas e escolhas públicas afetam a equidade entre quem vive hoje e quem nascerá amanhã.
A aparente simplicidade do conceito requer sublinhar que a unidade de observação é uma geração, ou coorte de nascimento, que se consegue observar e comparar em estudo ao longo da vida. Não sendo, por isso, difícil concluir da dificuldade de obter este tipo de estudo. Por outro lado, o conceito de justiça intergeracional também levanta desafios conceptuais. Numa perspetiva comutativa deverá existir uma troca em que cada geração transmite à geração seguinte, no mínimo, os recursos e condições que recebeu, ao passo que numa perspetiva distributiva a transferência para a próxima geração pode implicar que se beneficie os membros mais desfavorecidos de cada coorte, reforçando o bem-estar coletivo.
No plano de observação do indivíduo, a saúde intergeracional é analisada à luz das trajetórias de vida e das interações familiares, comunitárias e sociais. A life course approach (Houweling e Grünberger, 2024) reconhece que a saúde resulta de uma acumulação de vantagens e riscos que se iniciam antes do nascimento e se prolongam até à velhice. O investimento precoce é um instrumento de justiça intergeracional, como sejam a nutrição materna, educação parental, vacinação e promoção de estilos de vida saudáveis que têm efeitos prolongados sobre a capacidade funcional e o bem-estar futuro. A abordagem 3G (three-generation approach; Cheng et al., 2015), especialmente relevante em contextos de envelhecimento populacional e de pressão sobre os sistemas de apoio familiar, propõe analisar as interdependências entre avós, pais e filhos, evidenciando a transmissão de recursos, cuidados e influências de saúde entre gerações vivas.
Qualquer que seja abordagem, as políticas e medidas de saúde intergeracionais deverão articular diversas dimensões de análise: proteção financeira, prevenção e promoção da saúde ao longo da vida. Incluem-se também programas de saúde escolar e parental, estratégias de literacia em saúde, apoio à saúde mental infanto-juvenil, envelhecimento ativo e integração comunitária.
Do ponto de vista agregado, a saúde intergeracional poderá ser entendida como uma dimensão de sustentabilidade social ao longo do tempo. As políticas de saúde não podem ser isoladas das políticas económicas, ambientais e educacionais, pois todas influenciam a distribuição temporal dos determinantes de saúde. Emerge assim a questão de quais os indicadores de justiça intergeracional em saúde que traduzam métricas distributivas e/ou comutativas entre diferentes gerações. Esta medição enfrenta dificuldades metodológicas, dado o carácter transversal e dinâmico das relações entre gerações. Ainda assim, várias instituições internacionais têm desenvolvido instrumentos e quadros de referência que procuram operacionalizar o conceito. Em Portugal, o Índice de Justiça Intergeracional (IJI) desenvolvido pela Fundação Calouste Gulbenkian e pelo Instituto de Políticas Públicas integra uma componente dedicada ao capital de saúde (FCG, IPP e autores, 2025).
A nível global, a Organização Mundial da Saúde propõe a abordagem Health Equity in All Policies (HEiAP)(CSDH, 2008), que amplia o princípio de Health in All Policies ao incorporar a dimensão temporal e de equidade. Esta perspetiva recomenda que todas as políticas públicas, desde o urbanismo à fiscalidade, sejam avaliadas pelo seu impacto na equidade em saúde, tanto nas desigualdades sociais contemporâneas como nas repercussões futuras das gerações vindouras. Não sendo uma métrica, é um enquadramento normativo que deverá ser tomado em consideração nas políticas e análises de justiça da saúde intergeracional.
Em suma, a saúde intergeracional justa e equitativa emerge como um campo de análise e ação essencial para garantir a sustentabilidade das políticas públicas. Exige que se olhe para a saúde não apenas como um bem individual, mas como um capital coletivo transgeracional, cuja preservação e reforço dependem da solidariedade entre coortes.
Aida Isabel Tavares, ISEG e CEISUC, atavares@iseg.ulisboa.pt
APES, 2026
Referências
Cheng TL, Johnson SB, Goodman E (2016), Breaking the Intergenerational Cycle of Disadvantage: The Three Generation Approach. Pediatrics, 137(6), e20152467
CSDH (2008). Closing the gap in a generation: health equity through action on the social
determinants of health. Final Report of the Commission on Social Determinants of Health.
Geneva, World Health Organization.
FCG, IPP e autores (2025) Que futuro deixamos às próximas gerações? Um índice de justiça intergeracional para Portugal. IPP, Lisboa. Disponível em https://www.ipp-jcs.org/indice-de-justica-intergeracional/ (acesso a 12.12.2025)
Houweling TAJ, Grünberger I. J (2024) Intergenerational transmission of health inequalities:
towards a life course approach to socioeconomic inequalities in health – a review. Epidemiology and Community Health,78,641–649.






