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Opinião ”Coaching de saúde no SNS: o que diz, afinal, a evidência?” | Gustavo Simões Cordeiro

19 Setembro, 2026
by Luís Filipe
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Coaching de saúde no SNS: o que diz, afinal, a evidência?

O health coaching – um acompanhamento estruturado, muitas vezes por telefone, que ajuda doentes crónicos a definir objetivos e a gerir a sua doença – tem sido avaliado em dezenas de ensaios clínicos e revisões sistemáticas. O tema ganhou atualidade com o procedimento que prevê a contratação destes serviços pelo SNS por cerca de 900 mil euros e com as dúvidas sobre a sua eficácia levantadas recentemente na comunicação social (SIC Notícias, 24 de agosto de 2026).

Algumas dessas preocupações são pertinentes, sobretudo quanto à contratação dos serviços sem um projeto-piloto prévio, que, a um custo muito inferior, permitiria avaliar as especificidades do sistema de saúde português e a real eficácia da solução proposta. Também a participação das ordens profissionais, como a Ordem dos Psicólogos e a Ordem dos Médicos, teria sido de grande utilidade.

Contudo, parte do debate parece ir além do que a evidência científica de facto suporta. Argumentou-se, por exemplo, que o coaching melhora comportamentos e a gestão da doença crónica, mas que não haveria evidência de impacto na redução das idas às urgências, dos internamentos ou dos custos de saúde.

Esta leitura merece cautela. A revisão sistemática de Kivelä et al. (2014) conclui que “health coaching improves the management of chronic diseases” e apenas pede mais investigação sobre o custo-efetividade e a eficácia a longo prazo – ou seja, ausência de evidência, não evidência de ausência. É verdade que a avaliação do programa Birmingham OwnHealth, em Inglaterra, não encontrou redução de internamentos nem de custos (Steventon et al., 2013); trata-se, porém, de um estudo observacional de 12 meses sobre um programa específico, cujos resultados não se podem generalizar sem mais. Um ensaio aleatorizado alemão com mais de seis mil doentes crónicos (Härter et al., 2016) observou menos internamentos entre doentes com insuficiência cardíaca e menor mortalidade a dois anos entre os acompanhados por coaching telefónico.

Somam-se a estes resultados revisões sistemáticas e ensaios mais recentes que apontam melhorias no controlo da pressão arterial e dos comportamentos alimentares (Meng et al., 2023), na qualidade de vida e na depressão (Boehmer et al., 2023), no peso corporal (Chew et al., 2023; Hesseldal et al., 2022) e na hemoglobina glicada de doentes diabéticos (Chen et al., 2019). A evidência não é consensual – um ensaio em doentes com insuficiência cardíaca não encontrou efeitos na qualidade de vida (Tiede et al., 2017), Boehmer et al. (2023) classificam como baixa a certeza da maioria das estimativas e escasseiam avaliações de longo prazo (Dejonghe et al., 2017) –, mas o seu conjunto aponta para benefícios em determinados resultados. Isto não constitui, porém, prova de que este programa específico será eficaz no contexto do SNS português.

A questão de fundo

O objetivo deste artigo não é defender esta contratação nem discutir qual evidência está mais correta. Como investigador, o que gostaria de ver é uma análise mais clara dos benefícios esperados deste e de qualquer programa de saúde pública. Afinal, 900 mil euros é um valor excessivo? A resposta não está no valor absoluto do contrato, mas na relação entre o custo e os benefícios que o programa efetivamente produzir. Se melhorar a gestão de doenças crónicas como a diabetes e a hipertensão, gerar ganhos de qualidade de vida e reduzir urgências e internamentos a longo prazo, poderá ser um bom investimento. Sabê-lo exige que o programa seja desenhado para ser avaliado desde o início – já que um piloto deixou de ser possível –, com metas, indicadores e, idealmente, um grupo de comparação, que permita estimar não só se o programa funciona, mas quanto custa cada benefício adicional.

Por fim, o argumento, também presente no debate público, de que estes 900 mil euros seriam mais bem aplicados na contratação de médicos não resiste a uma questão de escala: equivalem a menos de 0,4% dos cerca de 250 milhões de euros gastos em 2025 só com médicos prestadores de serviços (dados da ACSS). Mais do que opor programas a contratações, importa saber que benefício adicional produz cada euro.

 

Gustavo Cordeiro é Research Associate na Public Health Policy Evaluation Unit do Imperial College London. Doutorado em Administração de Empresas, na área de Estratégia, pela FGV-EAESP, dedica-se à avaliação de impacto de políticas públicas de saúde. Foi investigador visitante na London School of Economics and Political Science e na Nova SBE.

 

Referências

Boehmer KR, Álvarez-Villalobos NA, Barakat S, et al. The impact of health and wellness coaching on patient-important outcomes in chronic illness care: a systematic review and meta-analysis. Patient Educ Couns. 2023;117:107975. doi:10.1016/j.pec.2023.107975

Chen R-Y, Huang L-C, Su C-T, et al. Effectiveness of short-term health coaching on diabetes control and self-management efficacy: a quasi-experimental trial. Front Public Health. 2019;7:314. doi:10.3389/fpubh.2019.00314

Chew HSJ, Rajasegaran NN, Chin YH, Chew WSN, Kim KM. Effectiveness of combined health coaching and self-monitoring apps on weight-related outcomes in people with overweight and obesity: systematic review and meta-analysis. J Med Internet Res. 2023;25:e42432. doi:10.2196/42432

Dejonghe LAL, Becker J, Froboese I, Schaller A. Long-term effectiveness of health coaching in rehabilitation and prevention: a systematic review. Patient Educ Couns. 2017;100(9):1643–1653. doi:10.1016/j.pec.2017.04.012

Härter M, Dirmaier J, Dwinger S, et al. Effectiveness of telephone-based health coaching for patients with chronic conditions: a randomised controlled trial. PLoS ONE. 2016;11(9):e0161269. doi:10.1371/journal.pone.0161269

Hesseldal L, Christensen JR, Olesen TB, et al. Long-term weight loss in a primary care–anchored eHealth lifestyle coaching program: randomized controlled trial. J Med Internet Res. 2022;24(9):e39741. doi:10.2196/39741

Kivelä K, Elo S, Kyngäs H, Kääriäinen M. The effects of health coaching on adult patients with chronic diseases: a systematic review. Patient Educ Couns. 2014;97(2):147–157. doi:10.1016/j.pec.2014.07.026

Meng F, Jiang Y, Yu P, et al. Effect of health coaching on blood pressure control and behavioral modification among patients with hypertension: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Int J Nurs Stud. 2023;138:104406. doi:10.1016/j.ijnurstu.2022.104406

Steventon A, Tunkel S, Blunt I, Bardsley M. Effect of telephone health coaching (Birmingham OwnHealth) on hospital use and associated costs: cohort study with matched controls. BMJ. 2013;347:f4585. doi:10.1136/bmj.f4585

Tiede M, Dwinger S, Herbarth L, Härter M, Dirmaier J. Long-term effectiveness of telephone-based health coaching for heart failure patients: a post-only randomised controlled trial. J Telemed Telecare. 2017;23(8):716–724. doi:10.1177/1357633X16668436

SIC Notícias. SNS gasta 900 mil euros em coaching de saúde, mas há evidência científica? Programa RX, 24 ago. 2026. https://sicnoticias.pt/programas/rx/2026-08-24-video-sns-gasta-900-mil-euros-em-coaching-de-saude-mas-ha-evidencia-cientifica–2e9ec961

 

 

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