A saúde mental começa na infância: o valor de investir cedo
Quando pensamos nos custos da doença mental, pensamos frequentemente nos adultos: consultas, medicamentos, baixas médicas, perda de produtividade. Mas a saúde mental começa muito antes. Quase metade das perturbações mentais tem início antes dos 18 anos e cerca de um terço antes dos 14 [1]. Pensar no investimento em saúde mental exige, por isso, olhar para a infância e para as condições familiares em que as crianças crescem.
As consequências dos problemas de saúde mental na infância não se limitam à saúde. Podem refletir-se no percurso escolar, nas relações familiares e sociais e, mais tarde, na participação no mercado de trabalho e na qualidade de vida. Os seus custos atravessam, assim, vários setores e podem acumular-se durante décadas.
É tentador concluir que prevenir será sempre melhor e mais barato do que tratar. Mas, enquanto economista da saúde, considero importante resistir a essa simplificação. Prevenir não significa necessariamente poupar dinheiro, nem todas as intervenções preventivas constituem um bom investimento. Precisamos de saber o que funciona, para quem, em que circunstâncias, a que custo e se os benefícios justificam os recursos investidos.
Na saúde mental infantil, estas perguntas são particularmente difíceis. Muitas intervenções têm custos hoje, enquanto alguns dos seus benefícios surgem apenas muitos anos depois. Melhorar a saúde mental de uma criança pode influenciar não só o seu bem-estar imediato, mas também o seu percurso escolar, a sua saúde futura e a sua participação na sociedade enquanto adulta. O horizonte das decisões orçamentais é curto; o horizonte da infância é uma vida inteira.
A evidência económica mostra que investir cedo pode representar uma boa utilização dos recursos. Numa revisão sistemática de 44 avaliações económicas de intervenções parentais dirigidas à saúde infantil, encontrámos resultados particularmente favoráveis para intervenções destinadas a prevenir problemas de comportamento externalizantes e internalizantes. Alguns programas de prevenção do abuso infantil mostraram também potencial para gerar poupanças no longo prazo [2].
Há ainda uma dimensão que não podemos ignorar: os pais. A saúde mental das crianças e a dos seus pais estão profundamente interligadas. A depressão perinatal materna, por exemplo, está associada a um maior risco de depressão nos filhos na adolescência e idade adulta [3]. Numa revisão sistemática que publicámos recentemente sobre intervenções para a ansiedade e depressão perinatal, encontrámos evidência de que várias intervenções podem representar uma boa utilização dos recursos. Mas os resultados nas crianças e outros impactos de longo prazo eram raramente considerados [4]. Isto pode alterar substancialmente a forma como estimamos o valor da prevenção. No Reino Unido, o custo societal ao longo da vida associado à ansiedade e depressão perinatal foi estimado em cerca de 9 mil milhões de dólares a preços de 2013, para uma única coorte anual de nascimentos, sendo a maior parcela atribuída às consequências para as crianças [4,5]. Se olharmos apenas para quem recebe diretamente a intervenção, arriscamo-nos a não ver uma parte importante do seu valor.
Esta é também uma questão de desigualdades. As crianças não começam todas do mesmo ponto de partida. A pobreza, o abuso, a negligência e outros contextos de vulnerabilidade estão associados a maiores riscos para a saúde mental e o desenvolvimento. Investir em intervenções eficazes e acessíveis na infância e no apoio aos pais pode contribuir para reduzir desigualdades ao longo da vida.
Em Portugal, temos uma oportunidade importante para produzir esta evidência. A iniciativa Growing Minds, da Fundação Calouste Gulbenkian, apoia intervenções na saúde materno-infantil, parentalidade e vinculação e adversidade na infância, com particular atenção a populações vulneráveis [6]. Desde 2023, temos trabalhado com estes projetos na avaliação do seu impacto e valor económico. Esta proximidade tem reforçado em mim uma convicção: implementar não chega; precisamos de avaliar e aprender. Precisamos de perceber o que funciona, para quem, a que custo, se chega às famílias que mais precisam e se os benefícios justificam o investimento.
Investir cedo não significa investir indiscriminadamente. Significa produzir evidência para escolher melhor e identificar as intervenções capazes de melhorar trajetórias de vida e gerar valor para as crianças, para as famílias e para a sociedade.
Se queremos melhorar a saúde mental da população adulta de amanhã, talvez tenhamos de começar muito antes: nas crianças e nas famílias de hoje.
Filipa Sampaio
Professora Associada de Economia da Saúde
Uppsala Health Economics
Uppsala University, Sweden
Referências
- Solmi M, Radua J, Olivola M, et al. Age at onset of mental disorders worldwide: large-scale meta-analysis of 192 epidemiological studies. Molecular Psychiatry. 2022;27:281–295. doi:10.1038/s41380-021-01161-7.
- Sampaio F, Nystrand C, Feldman I, Mihalopoulos C. Evidence for investing in parenting interventions aiming to improve child health: a systematic review of economic evaluations. European Child & Adolescent Psychiatry. 2024;33:323–355. doi:10.1007/s00787-022-01969-w.
- Tirumalaraju V, Suchting R, Evans J, et al. Risk of Depression in the Adolescent and Adult Offspring of Mothers With Perinatal Depression: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Network Open. 2020;3(6):e208783. doi:10.1001/jamanetworkopen.2020.8783.
- Bidnurmath AS, Kumar S, Sampaio F. Cost Effectiveness of Interventions for Perinatal Anxiety and/or Depression: A Systematic Review of Global Evidence. Applied Health Economics and Health Policy. Published 29 July 2026. doi:10.1007/s40258-026-01059-x.
- Bauer A, Parsonage M, Knapp M, Iemmi V, Adelaja B. The costs of perinatal mental health problems. London: Centre for Mental Health and London School of Economics and Political Science; 2014.
- Fundação Calouste Gulbenkian. Growing Minds. Available at: https://gulbenkian.pt/en/publications/growing-minds/ (accessed 04 October 2026).







