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Opinião ”A saúde mental começa na infância: o valor de investir cedo” | Filipa Sampaio

05 Outubro, 2026
by Luís Filipe
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A saúde mental começa na infância: o valor de investir cedo

Quando pensamos nos custos da doença mental, pensamos frequentemente nos adultos: consultas, medicamentos, baixas médicas, perda de produtividade. Mas a saúde mental começa muito antes. Quase metade das perturbações mentais tem início antes dos 18 anos e cerca de um terço antes dos 14 [1]. Pensar no investimento em saúde mental exige, por isso, olhar para a infância e para as condições familiares em que as crianças crescem.

As consequências dos problemas de saúde mental na infância não se limitam à saúde. Podem refletir-se no percurso escolar, nas relações familiares e sociais e, mais tarde, na participação no mercado de trabalho e na qualidade de vida. Os seus custos atravessam, assim, vários setores e podem acumular-se durante décadas.

É tentador concluir que prevenir será sempre melhor e mais barato do que tratar. Mas, enquanto economista da saúde, considero importante resistir a essa simplificação. Prevenir não significa necessariamente poupar dinheiro, nem todas as intervenções preventivas constituem um bom investimento. Precisamos de saber o que funciona, para quem, em que circunstâncias, a que custo e se os benefícios justificam os recursos investidos.

Na saúde mental infantil, estas perguntas são particularmente difíceis. Muitas intervenções têm custos hoje, enquanto alguns dos seus benefícios surgem apenas muitos anos depois. Melhorar a saúde mental de uma criança pode influenciar não só o seu bem-estar imediato, mas também o seu percurso escolar, a sua saúde futura e a sua participação na sociedade enquanto adulta. O horizonte das decisões orçamentais é curto; o horizonte da infância é uma vida inteira.

A evidência económica mostra que investir cedo pode representar uma boa utilização dos recursos. Numa revisão sistemática de 44 avaliações económicas de intervenções parentais dirigidas à saúde infantil, encontrámos resultados particularmente favoráveis para intervenções destinadas a prevenir problemas de comportamento externalizantes e internalizantes. Alguns programas de prevenção do abuso infantil mostraram também potencial para gerar poupanças no longo prazo [2].

Há ainda uma dimensão que não podemos ignorar: os pais. A saúde mental das crianças e a dos seus pais estão profundamente interligadas. A depressão perinatal materna, por exemplo, está associada a um maior risco de depressão nos filhos na adolescência e idade adulta [3]. Numa revisão sistemática que publicámos recentemente sobre intervenções para a ansiedade e depressão perinatal, encontrámos evidência de que várias intervenções podem representar uma boa utilização dos recursos. Mas os resultados nas crianças e outros impactos de longo prazo eram raramente considerados [4]. Isto pode alterar substancialmente a forma como estimamos o valor da prevenção. No Reino Unido, o custo societal ao longo da vida associado à ansiedade e depressão perinatal foi estimado em cerca de 9 mil milhões de dólares a preços de 2013, para uma única coorte anual de nascimentos, sendo a maior parcela atribuída às consequências para as crianças [4,5]. Se olharmos apenas para quem recebe diretamente a intervenção, arriscamo-nos a não ver uma parte importante do seu valor.

Esta é também uma questão de desigualdades. As crianças não começam todas do mesmo ponto de partida. A pobreza, o abuso, a negligência e outros contextos de vulnerabilidade estão associados a maiores riscos para a saúde mental e o desenvolvimento. Investir em intervenções eficazes e acessíveis na infância e no apoio aos pais pode contribuir para reduzir desigualdades ao longo da vida.

Em Portugal, temos uma oportunidade importante para produzir esta evidência. A iniciativa Growing Minds, da Fundação Calouste Gulbenkian, apoia intervenções na saúde materno-infantil, parentalidade e vinculação e adversidade na infância, com particular atenção a populações vulneráveis [6]. Desde 2023, temos trabalhado com estes projetos na avaliação do seu impacto e valor económico. Esta proximidade tem reforçado em mim uma convicção: implementar não chega; precisamos de avaliar e aprender. Precisamos de perceber o que funciona, para quem, a que custo, se chega às famílias que mais precisam e se os benefícios justificam o investimento.

Investir cedo não significa investir indiscriminadamente. Significa produzir evidência para escolher melhor e identificar as intervenções capazes de melhorar trajetórias de vida e gerar valor para as crianças, para as famílias e para a sociedade.

Se queremos melhorar a saúde mental da população adulta de amanhã, talvez tenhamos de começar muito antes: nas crianças e nas famílias de hoje.

Filipa Sampaio

Professora Associada de Economia da Saúde

Uppsala Health Economics

Uppsala University, Sweden

 

Referências

  1. Solmi M, Radua J, Olivola M, et al. Age at onset of mental disorders worldwide: large-scale meta-analysis of 192 epidemiological studies. Molecular Psychiatry. 2022;27:281–295. doi:10.1038/s41380-021-01161-7.
  2. Sampaio F, Nystrand C, Feldman I, Mihalopoulos C. Evidence for investing in parenting interventions aiming to improve child health: a systematic review of economic evaluations. European Child & Adolescent Psychiatry. 2024;33:323–355. doi:10.1007/s00787-022-01969-w.
  3. Tirumalaraju V, Suchting R, Evans J, et al. Risk of Depression in the Adolescent and Adult Offspring of Mothers With Perinatal Depression: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Network Open. 2020;3(6):e208783. doi:10.1001/jamanetworkopen.2020.8783.
  4. Bidnurmath AS, Kumar S, Sampaio F. Cost Effectiveness of Interventions for Perinatal Anxiety and/or Depression: A Systematic Review of Global Evidence. Applied Health Economics and Health Policy. Published 29 July 2026. doi:10.1007/s40258-026-01059-x.
  5. Bauer A, Parsonage M, Knapp M, Iemmi V, Adelaja B. The costs of perinatal mental health problems. London: Centre for Mental Health and London School of Economics and Political Science; 2014.
  6. Fundação Calouste Gulbenkian. Growing Minds. Available at: https://gulbenkian.pt/en/publications/growing-minds/ (accessed 04 October 2026).
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